Você sabe analisar a sustentabilidade do pagamento de dividendos das empresas da sua carteira?

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A atual crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus fez com que inúmeras empresas no Brasil e no mundo optassem por suspender ou postergar o pagamento de dividendos aos seus acionistas, algo que não acontecia de maneira generalizada desde a crise que teve início no fim de 2007. As empresas fazem isso para defender seu caixa e sua liquidez enquanto esperam o cenário clarear para ter maior visibilidade sobre o futuro da economia, do mercado e da própria empresa. Nesse post vamos discutir como você pode criar seu próprio julgamento sobre a probabilidade de uma empresa cortar (ou até mesmo suspender) o pagamento de dividendos aos seus acionistas.

A forma tradicional de olhar a segurança dos dividendos (dividend safety) é por meio do indicador de payout (dividendos pagos/lucro líquido) e o seu inverso, o índice de cobertura de dividendos (lucro líquido/dividendos pagos). Um payout mais alto (e por consequência um índice de cobertura mais baixo), tudo mais constante, indicam um risco aumentado de corte nos dividendos. A lógica por trás disso é que um pequeno impacto negativo no lucro já faria com que os dividendos não conseguissem ser pagos puramente pelo lucro no caso do payout ser muito elevado.

É claro que muitos outros fatores devem ser levados em consideração ao analisar esses indicadores, como o estágio em que a empresa se encontra e as perspectivas para o mercado no qual ela está inserida. Empresas maduras tendem a ter payouts maiores, enquanto empresas pequenas e jovens costumam reinvestir todo o caixa gerado no negócio. Quando o índice de cobertura de dividendos cai para 1 ou abaixo de 1, isso é sinal de que o nível dos dividendos não é sustentável, exceto se houver um motivo muito claro que justifique isso (como um impacto não recorrente no lucro).

Os indicadores explicados acima são simples e úteis até certo ponto, mas para fazer uma análise mais completa sobre a capacidade de pagamentos de dividendos de uma companhia, devemos levar em consideração alguns outros pontos para fazer a conta. O primeiro ajuste é usar o fluxo de caixa gerado ao acionista (FCFE) ao invés do lucro líquido. O FCFE leva em conta o caixa gerado na operação, os investimentos feitos pela companhia e a variação da dívida da empresa, de tal forma que ele representa melhor a capacidade de distribuição de recursos ao acionista. O segundo ajuste é somar as recompras de ações aos dividendos pagos, pois na prática ambos representam distribuições aos acionistas.

Dessa forma, o índice de cobertura FCFE = FCFE/(dividendos + recompras)

Um índice maior do que 1 significa que a empresa está melhorando sua liquidez ao reter recursos em caixa. Se o índice for 1, isso significa que a empresa está retornando todo o caixa gerado naquele período aos acionistas. Já um índice abaixo de 1 não é sustentável porque a empresa estará reduzindo sua liquidez e não consegue fazer isso consistentemente no longo prazo.

Exemplo prático

Imagine uma empresa fictícia que tem os seguintes indicadores:

A partir desses números, podemos calcular as métricas explicadas anteriormente:

O que podemos concluir analisando os números históricos dessa empresa? No primeiro ano, a empresa possuía métricas bastante saudáveis, com os índices de cobertura bem acima de 1. No entanto, ao longo dos anos seguintes houve um aumento consistente na distribuição aos acionistas, sem que isso fosse acompanhado por uma melhora da mesma magnitude nos resultados, de tal forma que os índices de cobertura deterioraram ano a ano, e atingiram níveis insustentáveis na leitura mais recente (índice de cobertura FCFE abaixo de 1). Na ausência de uma perspectiva de melhora nos resultados da companhia, o investidor da empresa deve esperar um corte nos dividendos e nas recompras de ações, já que elas estão em um nível inadequado para o patamar de geração de caixa da companhia.

Outro ponto no qual o investidor deve ficar atento é que algumas companhias tentam inflar a geração de caixa para o acionista endividando mais a companhia ou cortando investimentos essenciais para a manutenção das atividades da empresa. Essas práticas podem manter os dividendos altos no curto prazo, porém prejudicam a saúde de longo prazo da companhia e não devem ser vistas com bons olhos pelos investidores e analistas.

Conte para nós, você já fez essa análise para as empresas que estão na sua carteira de investimentos?