A Semana Macro (3/08) – O Covid e o PIB

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Seguimos otimistas com a recuperação, mas não custa lembrar que a lenta melhora dos números da pandemia no Brasil deve cobrar seu preço no PIB no curto prazo, principalmente no setor de serviços. Como os mercados olham “pra frente”, isto não deveria ser um grande problema. Vamos ao Detalhes:

A semana foi marcada por divulgações preliminares do PIB do 2° trimestre, com destaque para os EUA e países da Europa. Que fique certo, os números não surpreenderam muito as expectativas. Os EUA mostraram uma queda de 9.5% contra o trimestre anterior (ou 33% em termos anualizados, como eles gostam de dizer), levemente acima das estimativas. No caso da Zona do Euro, o PIB recuou 12.1%, ainda assim em linha com o consenso dos economistas. Nos principais países da região as quedas variaram desde -18.5% na Espanha até -10.1% no caso da Alemanha. Entre os países emergentes, chamou a atenção a queda de 17.3% do PIB mexicano em sua divulgação preliminar, também próxima das estimativas.

É interessante notar a forte relação destes números com a evolução da pandemia em cada país. Como era de se esperar, o PIB caiu mais em países onde o isolamento social foi maior. Usando dados fornecidos pelo Google, construímos um índice de mobilidade social para cada país (quanto mais negativo, pior). No gráfico abaixo cruzamos a média deste índice no 2° trimestre contra o crescimento do PIB no mesmo período em cada país.

Gráfico 1: Mobilidade social vs. cresc. do PIB (QoQ%) no 2° trimestre

Fonte: Versa Asset

Naturalmente, a mesma relação deveria valer na subida. Países com maior sucesso em conter o vírus e retomar a mobilidade deveriam ver uma recuperação mais rápida da economia no segundo semestre. O que estes dados tem mostrado recentemente? Abaixo temos um “mapa de calor” que ilustra a evolução do índice em uma escala de cor (azul=normalidade, vermelho=alto isolamento).

Gráfico 2: Índice de mobilidade social – evolução por país

Fonte: Google e Versa Asset

Em primeiro lugar, notamos a clara recuperação da mobilidade na maior parte da Europa. Há inclusive países onde o índice está até um pouco acima dos níveis do início do ano, provavelmente como reflexo do verão europeu. Claramente a forte queda dos números de casos, e especialmente de mortos, na região tem contribuído nesta recuperação. Na última semana morreram em média 10 pessoas por dia na França (ante um pico de 1.1 mil), 4 na Alemanha (pico de 230), 7 na Itália (820) e apenas 2 na Espanha (870). Até agora o aumento recente no número de casos em alguns países não tem se traduzido em elevação das mortes e nem redução significativa nos índices de mobilidade.

Vale ressaltar que esta forte melhora do índice de mobilidade não quer dizer que tudo voltou exatamente ao normal. Hábitos mudaram e as pessoas trocaram os lugares frequentados. O gráfico abaixo mostra a quebra do índice para a zona do Euro. De um lado, idas ao trabalho e transporte público pararam de subir há algumas semanas em uma patamar próximo de 20% abaixo do normal, provavelmente devido ao home office. Por outro lado, idas a parques públicos e lugares ao ar livre mais do que dobraram no período.

Gráfico 3: Mobilidade social na zona do Euro – componentes

Fonte: Google e Versa Asset

Para os EUA, o mapa de calor confirma uma situação bastante heterogênea. Enquanto a evolução atrasada da epidemia em grandes estados como Florida, Texas e Califórnia tem levado estes a alongar o distanciamento, outras regiões do país já estão muito próximas ao pré-covid.

Por fim, chama a atenção a dificuldade dos países emergentes, especialmente na América Latina, em voltar a normalidade. Nestas regiões as taxas de isolamento ainda continuam bastante elevadas, naturalmente refletindo a lenta redução do número de óbitos. O Brasil não está sozinho nesta.

No Brasil, atividade seguiu positiva

Os dados de atividade na semana continuaram reforçando a percepção de uma recuperação mais forte no curto prazo (junho e julho), com destaque para o mercado de trabalho formal e as pesquisas de confiança. Para junho, os números de criação de empregos com carteira assinada (Caged) surpreenderam bastante os economistas. Foram perdidos “apenas” 11 mil postos de trabalho no mês, enquanto as estimativas do mercado eram de -220 mil. A surpresa positiva foi relativamente generalizada entre os setores. Com o ajuste sazonal, o número de junho ficou em algo como -15 mil, ante -980 mil em abril e -366 mil em maio.

Gráfico 4: Criação líquida de empregos formais (CAGED) – milhares sa

Fonte: Ministério da Economia e Versa Asset

Por sua vez, as pesquisas de confiança de julho também animaram. Ouve melhora generalizada, inclusive superando as estimativas preliminares que haviam sido publicadas em meados do mês. Na ponta positiva o destaque continua com a indústria, enquanto a recuperação dos serviços e da confiança do consumidor seguem um pouco mais lentas.

Gráfico 5: Pesquisas de confiança da FGV (último dado: julho)

Fonte: FGV e Versa Asset

..mas, continuará assim?

Há três semanas explicitamos nosso otimismo com a recuperação. Na linha do que temos visto na Europa, o risco de uma segunda onda da doença que comprometa a gradual reabertura das economias parecia (e ainda parece) baixo. As perspectivas de vacinas, por sua vez, tem sido cada vez mais promissoras e as pessoas tem voltado a sair de casa mais rápido do que se imaginava. Some-se a isso a disposição dos governos em fornecer suporte fiscal e liquidez quase ilimitados, e temos a receita para muita animação nos mercados. Este é pano de fundo. Dito isto, valem algumas considerações sobre o que esperar para os números de atividade econômica nos próximos meses, e em que medida estes poderiam mudar tal quadro positivo

Como vimos, há forte correlação entre mobilidade social e atividade econômica nesta crise. Vimos na queda e provavelmente veremos na recuperação nos próximos meses. Neste sentido, os números de isolamento não ajudam muito o Brasil. A começar pela projeção do PIB do 2º trimestre, que será divulgado daqui um mês. Nossos modelos, utilizando uma série de indicadores já conhecidos (vendas, produção industrial, emprego, etc), sugerem uma queda de 9% em relação ao primeiro tri, algo não tão diferente do que temos lido de outros economistas. No entanto, se seguirmos a relação verificada no gráfico 1 (PIB em função da mobilidade), chegaríamos em uma queda esperada de 13 % no Brasil. Ou seja, pode haver espaço para alguma decepção no PIB do 2º tri quando levamos em conta os dados de isolamento.

Talvez a diferença tão grande entres as projeções seja explicada pelo setor de serviços. Embora este seja o setor mais relevante para o PIB (66%), é aquele onde temos menor disponibilidade de dados de alta frequência de qualidade para calibrar os modelos. Como a maioria das variáveis utilizadas nestes modelos estão ligadas a indústria e ao consumo de bens (onde a recuperação tem sido mais rápida), talvez as estimativas de PIB não possam estar capturando todo o impacto negativo da pandemia nos serviços.

Também vimos que este não é um “privilégio” do Brasil. A maior parte dos países emergentes, especialmente na América Latina, tem tido dificuldades para reverter o isolamento social nos últimos dois meses, e isto deve ter sua contrapartida nos números de PIB. A recuperação tenderia a ser, em um primeiro momento, relativamente mais forte nos países ricos onde o controle da doença se mostrou mais efetivo.

A boa notícia é que esta situação não é propriamente uma surpresa para os mercados. A razão apontada para a forte depreciação das moedas emergentes durante esta crise tem sido desde o início justamente esta. O Brasil então, nem se fala. Somos a moeda emergente com maior depreciação no ano. Ou seja, parece já estar no preço.

Resumindo, seguimos qualitativamente otimistas com a recuperação, mas podemos ter alguma decepção com os números de atividade no curto prazo, especialmente no setor de serviços, visto a lentidão em conter a doença e normalizar a mobilidade social no Brasil. Como os mercados olham pra frente, isto não deveria ser um grande problema por enquanto.

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