A Semana Macro (06/01) – Positiva (Mas Nem Tanto Assim)

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O ambiente positivo global e interno não se reverteu até a virada do ano, a despeito de alguns pontos de atenção vindos da geopolítica e de indicadores econômicos nos últimos dias. No âmbito externo, o otimismo com o acordo EUA-China ainda reverberou, minimizando os dados mais fracos de atividade americanos, mas a escalada das tensões no Oriente Médio tem pesado recentemente. No Brasil, a economia continuou a dar sinais de recuperação, porém expectativas muito otimistas para atividade no curto prazo ainda merecem cautela.

 

Mundo:  Ainda positivo, com algumas ressalvas.

O fôlego dos mercados não parecia ter acabado por enquanto… De fato, as bolsas mundiais continuaram em tendência positiva em boa parte das últimas duas semanas, mesmo considerando o stress das bolsas da última sexta-feira (e de hoje?). Neste sentido, o otimismo com o acordo comercial China-EUA ainda fez preço: o presidente Trump confirmou que o mesmo será assinado até o dia 15 de janeiro.

… mesmo com algum risco geopolítico no ar... O assassinato do comandante iraniano foi o evento mais negativo para os mercados nas últimas semanas.  Até agora não há muito consenso sobre suas implicações, mas a maioria das análises não apontam para risco significante de guerra, destacando a posição relativamente desfavorável do Irã para impor retaliações. Mesmo assim, o preço do Petróleo reagiu e o barril do tipo brent acumula alta de 5%  até a manhã desta segunda-feira.  A julgar pela reação do Ibovespa na sexta-feira, onde as perdas quase zeraram ao longo do dia, a brincadeira do Luiz no Twitter tem seu fundo de verdade. Tomara que ainda valha hoje!!

… e alguns sinais de alerta na atividade econômica americana.  Em uma agenda fraca. o resultado negativo do ISM manufaturas de dezembro chamou a atenção. O índice recuou para 47.2, patamar mais baixo desde Junho de 2009. (Lembrando, valores abaixo de 50 significam retração da atividade). De fato, o Philadelphia Fed Index já havia apontado para uma desaceleração em dezembro.  Como podemos ver no gráfico abaixo, a atividade industrial nos EUA vem perdendo ímpeto desde 2018, em grande parte pela elevação das tarifas comerciais. Neste sentido, resultados ruins para indústria no curto prazo poderiam ser relativizados pelo mercado na medida que as negociações comerciais entre os dois países continuem avançando.

Gráfico 2: Índices de atividade Industrial nos EUA

Fonte: Bloomberg e Versa Asset

Brasil: Recuperação gradual ainda segue

O desemprego continuou a cair… A taxa de novembro recuou mais do que o esperado, para 11.2% ante 11.6% em Outubro.  No entanto, parte da surpresa não ocorreu propriamente pela criação mais pujante de empregos, mas sim pela desaceleração no contingente de pessoas procurando trabalho. De fato, enquanto a população ocupada (PO) continuou a crescer num ritmo de +1.6% ao ano, a população economicamente ativa (PEA) desacelerou para +1.1% ao ano, valor mais baixo desde fevereiro. A boa notícia é que embora a criação de empregos não tenha se acelerado, este crescimento se concentra cada vez mais nos empregos com carteira assinada (+2.2% YoY vs +2.0% no emprego informal).

Gráfico 3: Taxa de Desemprego no Brasil (%)

Fonte: IBGE e Versa Asset

… o crédito continuou a crescer… Desta vez, o destaque positivo ficou com as empresas, com seu saldo de crédito avançando +0.6% YoY (vs. 0% em outubro) e novos empréstimos saltando +14.9% YoY (vs. +7.2% em out.). Pelo lado das pessoas físicas, o crescimento desacelerou um pouco, mas ainda continua vigoroso: o estoque de crédito subiu +10.8% YoY (+11.3% em out.) enquanto os novos empréstimos avançaram +8.6% YoY (+10.7% em out.).

Gráfico 4: Crescimento do saldo de crédito (YoY %)

Fonte: Bacen e Versa Asset

… e a confiança melhora. Na última semana do ano, foi a vez das pesquisas de serviços e do comércio confirmarem o cenário positivo nos indicadores de confiança de Dezembro. A sondagem de serviços da FGV foi o destaque, avançando para 96.1, contra 95.0 em Novembro. A confiança do comércio, também avançou, mesmo que mais timidamente (98.1 vs. 97.8 em novembro).

Gráfico 5: Pesquisas de confiança da FGV

Fonte: FGV e Versa Asset

No entanto, os dados da balança comercial não animaram muito. O destaque negativo da semana, em nossa opinião, ficou com os números de comércio exterior de dezembro. Estes sugerem uma recuperação mais tímida da atividade econômica no mês. Embora o saldo comercial de dezembro tenha sido mais positivo do que os analistas previam (US$5.6bi contra expectativa de US$4.3bi), boa parte dessa surpresa foi por conta das importações mais fracas no mês. Em que se pese o alto nível de ruído nos dados mensais de comércio, o gráfico abaixo ilustra o menor ímpeto das importações nos últimos dois meses.

Gráfico 6: Importação/exportação mensal (US$bi,  ajust. sazon.)

Fonte: Mdic e Versa Asset

E o PIB, sobe quanto? A julgar pelos indicadores já divulgados, o crescimento do PIB no 4º trimestre não deve ser muito diferente do que foi no 3º tri (0.6% QoQ). Para ser exato, nossa estimativa em tempo real aponta para 0.64%. A segunda casa decimal não é para dar a falsa sensação de precisão, mas sim para observarmos a evolução da estimativa ao longo do trimestre (gráfico abaixo).  Podemos dizer que o 4º tri foi marcado por surpresas positivas na atividade econômica, mas ainda não o suficiente pra muita empolgação.

Gráfico 7: Projeção do PIB do 4º tri em tempo real

Fonte: Versa Asset

Pra ser justo, 0.6% não é ruim. Se continuarmos a essa taxa por todos os trimestres do ano, cresceremos 2.5% em 2020, o que já é um pouco acima do que a maioria dos economistas esperam (relatório Focus aponta 2.30%). Se lembramos que os últimos cortes da Selic só farão efeito daqui alguns meses, é plausível imaginar algum espaço para mais aceleração. Portanto, um cenário de crescimento de 2.5-3.0% este ano nos parece realista.

 

O que devemos ficar de olho nessa semana?

Além dos desdobramentos das tensões no Oriente Médio, lá fora o destaque estará nos números do mercado de trabalho americano, a serem publicados na sexta-feira. Aqui no Brasil, não se assuste com os dados de produção industrial de novembro (quinta-feira) e do IPCA de Dezembro (sexta-feira).  Para a produção industrial esperamos uma queda (aprox. -0.5% MoM) devido a fraca produção de veículos no mês. Para o IPCA, a inflação no mês deve continuar a subir (1.1% no mês) puxada pelos preços de alimentos.