A Semana Macro (03/02) – Coronavírus, Juros Baixos e Recuperação

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Em uma semana onde o coronavírus dominou a atenção no plano global, as apostas de cortes de juros nos EUA se fortaleceram ainda mais. De fato, mesmo com os bons números de crescimento, a inflação continuou baixa e o Fed enfatizou seu desconforto com isso. No Brasil, a atividade econômica voltou a nos animar.  Neste sentido, destacamos os fortes dados de crédito, mas as pesquisas de confiança também ajudaram.

Mundo: Coronavírus e Juros mais baixos.

Atenções voltadas para o coronavírus. As bolsas e os preços das commodities continuaram a sofrer com o tema. De fato, o número de casos confirmados quintuplicou durante a semana para mais de 17mil, sem sinais de desaceleração até a noite de domingo. Há pouca dúvida de que os impactos econômicos de curto prazo devem ser significativos. Afinal, diferentemente das epidemias anteriores, não se trata apenas de um choque de demanda (menos gente na rua consumindo), mas também de um choque de oferta, visto que desta vez várias empresas estão interrompendo suas atividades. A dúvida fica nos efeitos de médio prazo caso a epidemia não seja controlada nas próximas semanas, atrapalhando as metas de crescimento para o ano.

Cresceram as apostas em corte de juros nos EUA. Além da volatilidade no mercado de renda variável, a semana foi marcada por movimentos importantes nos títulos de renda fixa, que passaram a precificar um cenário de juros ainda mais baixos no mundo. Por exemplo a curva de juros norte-americana agora embute 2 cortes de 0.25% ao longo do ano. Um mês atrás, o mesmo mercado atribuía probabilidade de “apenas” 60% de que um único corte ocorresse (gráfico abaixo). Certamente o coronavírus teve papel importante para explicar tal movimento (aversão a risco, chance de recessão, etc.), mas outros fatores merecem atenção.

Gráfico 1: Trajetória implícita na curva de juros p/ o Fed funds rate

Fonte: Bloomberg e Versa Asset

 O crescimento seguiu robusto… A depender somente dos dados de atividade econômica, uma nova rodada de cortes de juros nos EUA não se justificaria. Afinal, o PIB do 4º tri, divulgado na semana, apontou crescimento anualizado de 2.1%, levemente acima das expectativas (2.0%). No ano fechado, o crescimento atingiu 2.3%, valor em linha com o crescimento médio da última década. A julgar pelos dados mais recentes, o 1º tri não deve ser muito pior do que isso, com crescimento próximo de 2% segundo nossas estimativas.

Gráfico 2: Crescimento do PIB (YoY%) nos EUA

Fonte: BEA e Versa Asset

…mas a inflação continuou em baixa… O lado “negativo” dos números do PIB ficou, na verdade, com seu índice de preços, o chamado deflator implícito do PIB. É a partir do deflator do consumo que se calcula o PCE price index, o índice de preços ao consumidor que o Fed olha mais atentamente. Nessa métrica, o núcleo de inflação anualizada no 4º tri foi de apenas 1.3%, ante expectativas de 1.6%. Lembrando, a meta de longo prazo do Fed é de 2% ao ano.

Gráfico 3: Inflação do PCE (QoQ saar) nos EUA

Fonte: BEA e Versa Asset

… e o Fed enfatizou seu desconforto com isso.  Não bastassem os números mais baixos de inflação na semana, o Fed fortaleceu seu compromisso com a meta de 2%, o que poderia ser lido neste contexto como uma “senha” para mais cortes. Que fique certo, a reunião de política monetária da quarta-feira não trouxe mudanças explícitas sobre o plano de vôo do Fed. No entanto, chamou a atenção uma pequena mudança no texto do comunicado. Onde antes se lia que o objetivo era trazer a inflação “para próximo de 2% ”, agora se lê “para 2%”. Ou seja, a tolerância com a inflação, que segue persistentemente abaixo da meta nos últimos anos, parece ter diminuído.  

Brasil: Atividade segue em recuperação

Os números de crédito continuaram animando… O balanço dos dados de atividade econômica seguiu positivo pela segunda semana consecutiva, após certa frustração na 1º metade do mês. Neste sentido, destacamos os números de crédito de dezembro, que continuaram em forte recuperação, em particular no crédito livre (aquele não regulado pelo governo). De fato, enquanto a concessão de crédito livre às pessoas físicas avançou 3% em relação a novembro, o crédito às pessoas jurídicas saltou mais de 10% (gráfico abaixo). Em doze meses, as taxas de crescimento real chegam a 14% (PF) e 17% (PJ).

Gráfico 4: Concessões de crédito livre (R$ milhões, sa, a preços dez/2019)

Fonte: Banco Central e Versa Asset

… e as pesquisas de confiança melhoraram. As sondagens da FGV para janeiro seguiram apontando recuperação na maioria dos setores. O destaque positivo ficou com a construção civil, avançando de 92.1 para 94.2. Do lado negativo, houve leve recuo da confiança do consumidor, provavelmente refletindo a alta do preço da carne.

Gráfico 5: Sondagens de confiança da FGV

Fonte: FGV e Versa Asset

 Sinais mistos nos dados de emprego, mas o saldo é positivo. Os dados de emprego do IBGE referente a dezembro foram relativamente positivos ao apontar uma leve queda da taxa de desemprego puxada pelo crescimento da população ocupada. Por outro lado, a alta do preço da carne mostrou seu impacto nos dados de renda real, cujo crescimento acumulado em 12 meses desacelerou de 1.0% para apenas 0.2%. Ou seja, a inflação subiu e os salários não acompanharam. A má notícia é que esse efeito deve ser sentido nos números de consumo de dezembro. A boa é que será revertido entre janeiro e março com a queda esperada do preço da carne. Com esses dados e os indicadores de crédito na conta, nossa projeção em tempo real para o crescimento do PIB do 1º tri avançou novamente para 0.6% (mesmo valor do 4º tri de 2019). Para o ano de 2020, seguimos com algo próximo a 2.5%.

Gráfico 6: Projeção em tempo real do PIB do 1º trimestre de 2020

O que devemos ficar de olho nesta semana?

Lá fora, Coronavírus, eleições e atividade nos EUA. Embora a evolução do Coronavírus continue dominando as atenções no mundo, as eleições americanas devem começar a ganhar seu peso a partir desta semana. Na segunda-feira, o estado de Iowa será o primeiro do país a realizar primárias para escolha do candidato democrata nas eleições presidenciais.  O candidato mais a esquerda, Bernie Sanders, é o favorito por lá e os mercados querem entender suas chances de ser escolhido como candidato democrata nos outros estados. Para a atividade econômica, também teremos o índice ISM na segunda-feira, e os dados de mercado de trabalho norte-americanos na sexta-feira.

No Brasil, Congresso, Copom, IPCA e indústria no radar. Com o Congresso voltando do recesso, o noticiário político volta a esquentar. Os temas mais quentes são as reformas administrativa e tributária e uma eventual dança das cadeiras nos ministérios. Na quarta-feira, o mercado espera que o Copom corte a Selic em 0.25%. A dúvida fica na comunicação sobre passos futuros: o comitê fechará as portas para novos cortes? Na sexta-feira, as atenções do IPCA ficarão nos preços de alimentos, e em que grau os núcleos de inflação continuarão contaminados pela alta da carne. Por fim, os economistas esperam que a produção industrial de dezembro na terça-feira venha fraca (-0.5% MoM) por conta da queda na produção de veículos. Qualquer coisa “menos pior” do que isso pode animar os mercados, e acreditamos que este seja o caso.